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23/01/09

Aí está...

KAR…PIT…AL

Um roteiro lisboeta a dois


Já há uns meses que tínhamos decidido aproveitar um dia a passear por Lisboa, cidade de mil encantos e recantos, do fado e dos Santos Populares, das sete colinas e do Tejo, sempre o Tejo.
O dia anunciava-se primaveril, céu limpo, sem vento e uma temperatura amena (as previsões apontavam para uma mínima de 13º e uma máxima de 22º). Decidimos aproveitar a manhã para sentir o despertar de Lisboa e das suas gentes, o ritmo diário de uma multidão que percorre as ruas da capital em direcção aos mais variados locais de trabalho que proliferam na cidade.
Manhã cedo chegámos à Praça da Figueira apinhada de gente, de variadas etnias, profusão de cor e movimento, conversando numa plêiade de línguas que não entendemos. Muitos dos que se cruzaram connosco acabariam por passar por ali o dia, sem rumo certo.
Empreendemos de imediato a subida até ao miradouro da Graça. Tarefa extenuante, mas recompensada pela vista privilegiada que pudemos contemplar enquanto, refrescados pela agradável sombra de um pinheiro manso, bebíamos um chá preto, sem açúcar. E olhámos demoradamente o Castelo, a Mouraria, o Martim Moniz, a Baixa Pombalina e as ruínas do Convento do Carmo, avistámos a serra de Monsanto, até o nosso olhar repousar no Tejo.
Saciados, abandonámos aquele local deslumbrante, parando ainda noutro miradouro bem próximo daquele, o da Senhora do Monte, donde admirámos a Igreja da Graça, com a sua imponente torre, a frondosa colina do Castelo e a Mouraria, detivemos o olhar na Baixa pombalina, para depois o subir até ao Carmo e avistámos a serra de Monsanto e, a norte, as Avenidas Novas e a Penha de França, nunca perdendo de vista o Tejo. Faltou o serviço de chá mas, nas vistas, rivalizou com o da Graça.
Descemos à Baixa. Íamos almoçar ao Bairro Alto pelo que nada melhor do que aproveitar uma das atracções da capital e subir no elevador de Santa Justa.
Saciado o apetite, caminhámos até à Doca do Espanhol, em Alcântara, onde chegámos ainda a tempo de tomar lugar no veleiro Príncipe Perfeito para uma viagem no Barco Poético. Durante o percurso, o tema da conversa foi a poesia. Conversámos sobre poesia, ouvimos recitar poesia, respirámos poesia. A certa altura, pediste autorização para, também tu, recitares um poema. O orador de serviço aquiesceu de imediato, tentado pelo ineditismo da proposta, e então abriste o meu mouleskine, que me tinhas retirado da mochila sem que eu me tivesse apercebido, e declamaste um dos meus poemas, que foi depois dissecado na sua totalidade formal e de conteúdo até ao fim da viagem.
Ainda não refeitos da emoção daquele momento, entrámos na Galeria Quadrado Azul e demorámo-nos a contemplar a exposição de fotografia de Paulo Nozolino, bone-lonely, e a sua predilecção pelos ambientes escuros e universos sufocantes, em fotografias, muitas delas de grande formato.
Caía a tarde.
Antes de jantar, apeteceu-nos contemplar o dia a terminar. Subimos até ao Miradouro do Adamastor. Um chá verde e a noite a chegar, com todo o brilho das luzes que se iam acendendo a nossos pés e iluminando a cidade que ainda demoraria algumas horas a adormecer.
Antes do regresso a casa, que tinha o seu ponto de partida na Gare do Oriente, parámos no Casino de Lisboa, não nos jogos de muito azar e pouca fortuna, mas no espectáculo dos Stomp. O humor, o ritmo irresistível, o movimento, os objectos mais díspares e os sons resultantes da sua utilização, proporcionaram duas horas de espectáculo visualmente impressionante, o complemento ideal para fechar com chave de ouro este roteiro lisboeta.

À trave:
Ela: Amor! Para mim, a fidelidade é muito importante.
Ele: Para mim também, querida. É a minha companhia de seguros!

(Gare do Oriente, s.d.)
@kar Luz Estrela

04/01/09

As escolhas de Kar Luz Estrela

2008 – As minhas escolhas muito pessoais

Melhores livros lidos:
O Homem sem Qualidades – Robert Musil;
Os Detectives Selvagens – Roberto Bolaño;
O Jogo do Mundo (Rayuela) – Júlio Cortázar;
Em Busca do Carneiro Selvagem – Haruki Murakami;
Fome – Knut Hamsun

Melhor livro de colecção:
Portugal em Selos 2008 - CTT

Melhores músicas ouvidas:

Tudo o Que Eu Te Dou – Pedro Abrunhosa & Bandemónio;
A Strange Kind of Love – Peter Murphy;
Where Is my Mind? – Pixies;
Save What You Can – The Triffids;
New York City – The Peter Malick Group featuring Norah Jones

Melhor texto escrito:
Sonhou que Era Um Cabide (no prelo)

Melhor dia do ano:
31 de Dezembro

Melhor nome de Café/Snack-bar:
PÁRA E PENSA

À entrada do Estádio:

Votos para 2009:

Que os coiratos nunca sejam de coiro,
Que a sã gria não adoeça,
Que o árbitro não seja loiro
E que cada um tenha o que mereça!

(Serra de Alvaiázere, 01 de Janeiro de 2009)

26/12/08

Era uma vez…

Um menino chamado Pedro. [1]
O Pedro tinha sete anos, era filho único e vivia com os pais numa aldeia perto da grande cidade.
O sonho do Pedro era ter um irmão; estava cansado de brincar sozinho, de querer jogar às escondidas e não ter ninguém para procurar, de querer jogar à apanhada e não ter ninguém para agarrar.
Um dia, o Pedro encheu-se de coragem, foi falar com a mãe e fez-lhe o seu pedido. Mas a mãe, assim que o ouviu, respondeu de imediato que era impossível porque o dinheiro mal chegava para pagar as prestações da casa e do carro, para a comida e para comprar de vez em quando alguma roupa. Por isso, um irmão nem pensar.
O Pedro ficou muito triste com a resposta da mãe mas não desanimou.
Perto da casa onde vivia, existia um baldio pantanoso, onde o Pedro ia muitas vezes para ouvir as rãs, ver as flores, as plantas que lá cresciam, tão diferentes das que via nos vasos que a mãe tinha em casa ou nos jardins dos vizinhos, os peixinhos pequeninos e também pequenos insectos que por ali andavam sempre à volta.
No pântano havia muito barro e, depois da conversa com a mãe, Pedro teve uma ideia: iria fazer um irmão de barro.
Assim, começou a ir todos os dias ao pântano buscar barro, que ia juntando num cantinho da garagem.
Quando lhe pareceu que já tinha barro suficiente, começou a sua obra. Durante vários dias foi trabalhando o barro e, depois de várias tentativas, o seu irmão estava pronto e tão bem feito, que só lhe faltava ter vida para poderem brincar os dois. Chamou-lhe João e levou-o para o quarto. Nessa noite, dormiu com o irmão de barro, na sua cama quentinha.
O Pedro estava muito contente com o irmão que tinha criado. Tão contente que não quis guardar essa alegria só para ele e, no dia seguinte, levou-o para a escola.
Quando chegou, explicou à professora que era o seu novo irmão e ela deixou-o entrar e sentá-lo na cadeira ao lado da sua e, durante aquela aula, os outros meninos da sala não pararam de olhar para o novo parceiro do Pedro.
Chegou a hora do recreio e o Pedro pegou no seu irmão ao colo e levou-o para o pátio, onde os outros meninos já jogavam à apanhada e à cabra-cega.
O Pedro não quis jogar nenhum jogo e afastou-se para um canto do pátio com o irmão e aí ficou a dar-lhe miminhos e a falar com ele. Estava tão feliz!
Mas de repente, sem que nada o fizesse prever, o sol desapareceu, nuvens muito escuras pintaram o céu de negro e logo de seguida uma chuva intensa abateu-se sobre o pátio.
O Pedro, que estava no canto mais afastado da porta de entrada na escola, nem queria acreditar no que estava a acontecer. Começou a correr para se proteger, mas a chuva era tão forte que mal conseguia andar. E então reparou que aquela chuva estava a cair também sobre o irmão, começando a desfigurá-lo, depois deformá-lo, até o derreter.
Quando se conseguiu abrigar, o seu irmão não era mais do que uma bola deformada de barro.
E o Pedro chorou, até os olhos ficarem secos por já não terem mais lágrimas para chorar. Depois, decidiu que quando fosse grande faria um irmão de pedra.
Terminada a escola, o Pedro voltou para casa, desolado. Ao chegar, a mãe estava a regar as flores e cantarolava, assobiava, por vezes quase parecia que estava a dançar e, ao vê-lo, correu para ele, beijou-o e abraçou-o com um abraço bem apertado.
O Pedro não estava à espera daquele contentamento, que contrastava com a sua tristeza, e perguntou à mãe o que tinha acontecido.
Então a mãe pegou nele pela mão e levou-o até à sala. Sentaram-se no sofá e começou a falar:
- Sabes, Pedro. Eu e o teu pai estivemos a conversar e decidimos que conseguimos dar-te o que nos tens pedido. Vais ter um irmão, que irá nascer pelo Natal!
O Pedro olhou para a mãe, com os seus olhos pretos bem abertos e brilhantes de alegria, abraçou-a, deu-lhe um demorado beijo na face e disse:
- Obrigado mamã. Não poderias dar-me melhor prenda. Este será o Natal mais feliz da minha vida!
(Conto de autor desconhecido. Inédito encontrado algures)

Na Liga Sagres, e em semana natalícia, nada melhor para manter o espírito desta quadra do que distribuir uns pontinhos! A Madeira e Coimbra agradeceram.

À trave:

Antes da queda, Adão transava mas não gozava.

(Budha Bar, s.d.)

[1] Não. Não era o Pedro Henriques. Este é o personagem de um possível conto de Natal, que não tem nada a ver com aquele que foi o actor principal de mais um roubo na Catedral!

Alinhar à direita@Kar Luz Estrela

19/12/08

Não há dobradinha!

Os Rey(es) também falham!

Por uma vez, tive a curiosidade de ler os comentários ao que, de há uns tempos a esta parte, tenho feito chegar a este blog, de e para benfiquistas, e foi uma autêntica desilusão! O acto de comentar, que de um acto nobre sempre se tratou, está hoje, graças aos avanços das novas tecnologias, vulgarizado e acessível a todos, o que origina que, na maior parte das vezes, o que se lê são apenas ataques depreciativos e marginais ao conteúdo do que se pretendeu comentar, escritos como se fossem mensagens de telemóvel, utilizando abreviaturas e letras a servir de palavras, e que espero que Fernando Pessoa nunca leia pois renegaria de imediato a sua Pátria, a língua portuguesa!
De uma forma geral, e ao institucionalizar-se o acesso do comum dos mortais aos mais variados meios de comunicação, permitiu-se que tudo possa ser dito e escrito sem controlo demasiado apertado, dando origem a que apareçam autênticas pérolas de escrita e conversação, como as que a seguir se tentam transcrever e que são apenas uma ínfima parte do enorme manancial que todos os dias fica disponível na Internet, na rádio ou na televisão:

“á é p deixar o comentário? atão cá vai disto: não gosto do quique. o governo é 1 kambada de xulos! kem não salta é lampião. toma lá mais 5! a lagartagem tá desperada! o p.c. é k vus mostra como é k é! Bibó Porto!

- Dê-nos a sua opinião no fórum TSF!
- Tou sim? Tou a falar do Montijo e tenho pra dizer que gosto muito do pograma. Que é bom darem a voz ao povo porque o povo tamém tem de se fazer ouvir.
- E quanto ao assunto em discussão o que é que tem a dizer?
- Bem, tá a ver, prontos, então é assim: eu até acho que o Paulo Bento é um bom treinador, mas o Miguel Veloso tá a ficar um bocado saídote e tem de levar um puxão de orelhas. Tá a ver. É isto que eu penso. Quanto ós outros. Eu não os considero grandes porque eu sou do sportim e é o único que é grande. Os outros nem aos calcantes lhe chegam. E prontos. É esta a minha opinião. M’to obrigada por me darem voz!

- Opinião Pública, na SIC, a sua opinião conta. E já temos um espectador em linha.
- Bom dia. Tou a falar da Amadora. Só uma pergunta: tão-ma ver na tevisão?
- Não.
- Ó pena. É que eu queria mesmo é que me vissem na tevisão. Mas portantos e quanto ao caso BPN, acho que o governo devia nacionalizar os bancos todos e ficava um banco só, para ajudar o Zé socras a endireitar isto porque o país tá mal, é só miséria e desemprego e roubos e bandidagem à solta. Sabe que eu tou aqui numa rua com muitos bandidos, já me tentaram entrar em casa duas vezes e a polícia não fez nada. Os bancos têm sido todos uns chulos a encherem-se à nossa custa. Portantos é isto que eu penso e mais uma vez muito obrigada por poder falar na tevisão, na sic que é a que vejo sempre. As outras não valem nada.”


Penso que a mostra é suficientemente elucidativa sobre a qualidade dos comentários que, na generalidade, nos são dados a ouvir e ler, e proporciona matéria mais que suficiente ao cronista para que, invocando novamente Fernando Pessoa e parafraseando um dos seus mais famosos poemas, escreva:

“E o que comenta o que leu
No comentário realça bem
Não aquilo que se escreveu
Mas só o que lhe convém.


Posto isto, ou se fosse um papelinho amarelo com uma faixa autocolante na retaguarda seria post it, o cronista entende que os comentários, sejam eles à forma, ao conteúdo, ou à cor clubista, são sempre bem-vindos, quanto mais não seja para poderem ser utilizados em próximas crónicas.
Quanto ao Glorioso, que 10 milhões de portugueses gostam de comentar, 4 milhões a dizer mal e sempre à espera que não vença, e 6 milhões porque é o seu clube do coração, conseguiu o que nem SCP nem FCP tinham conseguido, isto é, não perder com o Leixões, jogando 120 minutos em pleno Estádio do Mar. Perdeu nos penaltis, mas nas lotarias nem todos ganham! Na Taça UEFA, a despedida foi justa, por aquilo que não fez em jogos anteriores, (in)justiça confirmada no último jogo em que, por manifesta falta de sorte, não conseguiu evitar um traumatismo ... ucraniano.

Comentário:

A minha mãe nunca me deu de mamar. Ela dizia que só gostava de mim como amigo.

(Praia da Nazaré, à procura de carapaus secos)
@Kar Luz Estrela

12/12/08

Kar Luz Estrela! E agora?

E agora?

Agora, cajuda do Guimarães, o Glorioso está no primeiro lugar da Liga Sagres!
Finalmente! Apetece dizer.
Depois da semi-frustração no jogo contra os homens do Sado, os comandados de Quique Flores deram uma resposta que os detractores da qualidade do grupo de trabalho julgavam impossível.
Independentemente da expulsão do guarda-redes do Marítimo, mais que justa, diga-se em abono da verdade desportiva, o Glorioso mostrou uma atitude em campo que deu a resposta eficaz e necessária para o momento menos positivo, em termos de resultados, que a equipa estava a atravessar.
Com um David à solta, qual fera endiabrada e que partiu completamente os rins à defesa menos batida da Liga, um senhor Rey(es) a marcar e dar a marcar golos e um grego, que não nos está atravessado, a comandar as operações a meio campo, o SLB foi imparável, construindo uma goleada histórica, daquelas que já não se viam há anos!
Agora é tempo de saborear e solidificar esta conquista e manter o nível exibicional atingido na Madeira, a começar já amanhã contra o vice líder da Liga Sagres em mais uma eliminatória da Taça de Portugal e continuando no próximo jogo da Taça UEFA em que, apesar de praticamente arredado da fase seguinte, o Glorioso tem a obrigação de, se tiver de se despedir desta competição, fazê-lo com uma exibição de gala, uma exibição “à Benfica”, que apague a imagem que, neste particular e nesta época, foi menos consentânea com os pergaminhos do SLB no seu brilhante historial das competições europeias.

Apito final:
“A humanidade produz Bíblias e armas; (…) transforma conventos em quartéis, mas nomeia capelães para esses quartéis.”
R. Musil, O Homem sem Qualidades

(Porto [Majestic], um dia de Dezembro, à hora de ponta)

05/12/08

O Pedido de Kar Luz Estrela

A Posteriori
Ainda não refeito das emoções atenienses, o Glorioso para consumo interno foi travado na sua caminhada conquistadora, rumo à vitória final, quando decorriam 80 minutos do jogo contra os homens do Sado. Uma decisão da equipa de arbitragem, que ninguém entendeu, escamoteou o SLB de três preciosos pontos que o colocariam na liderança isolada da Liga SAGRES. No entanto, e contrariando a opinião geral, penso que a decisão do árbitro foi correcta, pois se o nosso treinador já por várias vezes referiu que a equipa não tem pressa de chegar ao primeiro lugar, então nada melhor do que fazer-lhe a vontade!
A semana que passou revelou também que ainda falta afinar muita coisa para que a máquina funcione em pleno, como ficou demonstrado à saciedade na tragédia grega que, praticamente, retirou o Glorioso da Taça UEFA e que muito me desiludiu, pois, como qualquer adepto que se preze, o meu objectivo é ver o Glorioso vencer sempre, seja em que prova for. No entanto, sou realista e, tendo a equipa muita gente nova, com novos métodos de trabalho e nova equipa técnica, e enquanto não somos comprados por um magnata das arábias ou do gás moscovita, temos de nos reduzir à nossa dimensão e optar pelo mais importante, ou seja, a conquista da Liga SAGRES. Este terá de ser o objectivo primordial. O resto poderá e deverá ser secundarizado.
Para que tal aconteça, aqui e agora manifesto a minha solidariedade e apoio a todos os que hoje vão gerindo e servindo o Glorioso, contrariamente àqueles que, há uns anos atrás, se serviam do Glorioso, reiterando a convicção que o principal objectivo que os deve nortear esta época e que nunca deverão hipotecar com objectivos secundários é a conquista da Liga, quanto mais não seja porque é a Liga SAGRES, a cerveja da minha preferência, uma cerveja de Lisboa que, assim, derrotará a sua rival do Norte, a S B!
Até por isso e também por isso o Glorioso TEM DE SER CAMPEÃO NACIONAL!

Às malhas laterais
“Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo”
(Torrance [Jack Nicholson], The Shinning)

(Cais do Sodré [com muita brilhantina], s.d.)
@Kar Luz Estrela

28/11/08

Ora aí está... Kar Luz Estrela

BAR DO ABISMO
O mar estava calmo. Enquanto a ondulação não ultrapassava a altura das pequenas rochas mais baixas, espraiando-se languidamente no imenso areal, o horizonte longínquo lançava apelos constantes e cada vez mais fortes… Entrar, embrenhar-se, dirigir-se rumo à linha de água que se vislumbrava ao longe, era o seu mais profundo desejo. Mas as obrigações de uma vida rotineira retinham-no e impediam-no de dar o passo rumo à liberdade.
Um barco navegava calmamente seguindo aquela linha imaginária que o seu olhar alcançava. Imaginou-se a navegar também, qual marinheiro quinhentista à descoberta de novos mundos, alargando horizontes, conhecendo o desconhecido, vendo o que ainda poucos tinham visto, civilizando o que era incivilizado, propagando uma cultura que iria arrasar e destruir culturas que não entendia.
Imaginou-se a tomar para si mulheres de outras cores, raças e credos, a estabelecer relações comerciais com vendedores de produtos desconhecidos, de diferentes aromas e sabores, a maravilhar-se com monumentos de estilos arquitectónicos não padronizados, a saciar a sua fome com alimentos que nunca degustara.
Imaginou-se lá, longe, há cinco séculos atrás, porque não conseguia ver-se hoje na vida sem sentido que ia desperdiçando.
De repente teve vontade de mergulhar e nadar, nadar, nadar até chegar ao barco que começava a perder-se no horizonte.
Mas, mais uma vez, faltou-lhe a coragem. E, virando costas ao mar, regressou à sua solidão maldizendo a sua cobardia.

E se na Liga Sagres o Glorioso deu mais uma lição de pragmatismo, vencendo e convencendo, na Taça UEFA há uma mão cheia de razões para não comentar.

Livro (in)directo
“Que importa a eternidade da danação a quem encontrou num segundo o infinito do prazer?” (Baudelaire)
(Atenas, 27 de Novembro de 2008)
@Kar Luz Estrela

31/10/08

Crónica de Kar Luz Estrela

Hoje!

Não me venham com lamúrias!
Não me digam que vai ser mais um ano sem ganharmos nada!
Mas também não me digam que este ano é que vai ser!
Porque, na semana que passou, o que vimos?
Que o muro de Berlim tremeu mas não caiu.
Que a armada Naval da Figueira da Foz fez tremer mas caiu.
Que ainda falta um golo para os 5 000.
Que, em 5 anos da “nova” Luz já ultrapassámos os 5 000 000 de espectadores!
Que somos 6 000 000!
Que estamos à frente dos rivais, que se deixaram surpreender pelos “bebés” de Matosinhos e pelos homens dos móveis.
Que caminhamos em direcção ao lugar que nos pertence, o primeiro, mas ainda há muito trabalho de casa para fazer e que na cidade berço temos de correr mais, lutar mais e marcar pelo mais um golo do que o adversário para continuar a alimentar o sonho.

A chama imensa já vai brilhando, embora por vezes ainda só tremeluzindo, mas parece estar no rumo certo.

A finalizar:
Diz o fígado para o bacalhau:
- Vamos fazer um óleo!


@Kar Luz Estrela

24/10/08

E fez-se Luz!

A Luz do Estádio!


A Luz que eliminou o Penafiel no jogo treino para a Taça de Portugal, treino mais demorado do que o habitual, e do qual se pode concluir que:

a) A dupla de centrais vale uma tripla;
b) O Makukula é demasiado alto para o futebol. Deveria jogar basquetebol pois assim conseguiria encestar mais bolas com a cabeça do que com as mãos;
c) E por falar em mãos, as do Moreira são excelentes!

A Luz que brilhou em Berlim!
A Luz que derrotou a armada Naval da Figueira da Foz!

E a Luz para descontrair:
Uma galinha saiu de casa para ir trabalhar.
Na rua encontrou uma lagarta.
Comeu-a!


@Kar Luz Estrela

17/10/08

HOJE NÃO...

Aviso:
HOJE NÃO HÁ!


Algures no país profundo, entre as 10 e as 11...

Sentado.
Sentido.
Sem tudo.

Que escrever quando a inspiração se refugiou nos braços do melhor amigo?
Que beber quando toda a bebida sabe a fel?
Que comer quando toda a comida se revolve nas entranhas?
Nada!


O Glorioso não jogou no fim-de-semana passado.
Domingo: jogo treino contra o Penafiel.
@Kar Luz Estrela

10/10/08

Aviso: HOJE HÁ CONQUILHAS!

Santa Marta de Penaguião, 12H45 – 14H00 e Santo António dos Cavaleiros, 19H55 – 21H05, s.d.

Duas refeições na restauração deste país em que sou confrontado com televisores ligados, som elevado para que todos os clientes possam ter acesso ao manancial informativo que as nossas amadas e estimadas televisões fazem o favor de nos oferecer. Nada melhor para acompanhar um bom repasto do que ir ouvindo o que os esforçados locutores e repórteres nos vão noticiando, numa torrente informativa capaz de ombrear com o caudal do Amazonas.
É ainda frequente ouvir dizer que ler jornais é saber mais mas ver telejornais é saber muito mais. Foi o meu caso hoje. Obrigado a ver e ouvir o Jornal da Tarde e o Jornal da Noite da TVI fiquei a saber, antes de mais, que das 13H00 às 20H00 não acontece nada nem no país nem no mundo, porque as notícias são praticamente as mesmas nos dois blocos informativos.
Depois, fiquei a saber que “milhares de portugueses estão a jogar no jogo da bolha” (não sei se é fácil, barato e dá milhões como os jogos da Santa Casa, mas que deve ser um grande jogo para atrair tanta gente, lá isso deve).
Soube também, quero dizer, já desconfiava, mas agora fiquei com a certeza, que a saúde em Portugal está cada vez mais doente. Então não é que “um doente foi enviado do hospital para casa nu, embrulhado num lençol”? Ao que isto já chegou!
Mas nem tudo são desgraças. Que o digam os habitantes de Coimbra que voltaram a ter motivos para sorrir, pois foram “reabertos os balneários públicos na Baixa de Coimbra”. Além disso, os habitantes daquele distrito emblemático do país, terra de doutores que se orgulha da sua ancestral Universidade, já podem dormir descansados pois um meliante que tinha aterrorizado aquelas gentes foi julgado e condenado pelo tribunal sendo “proibido de entrar no distrito de Coimbra”. Apenas me interrogo como é que as autoridades vão fiscalizar o cumprimento desta proibição. Será que estão a pensar fazer um cordão humano à volta do distrito para garantir que o tal sujeito não viola a lei?
Além das notícias importantíssimas para aferir o estado da nação, gostei muito da apresentadora do Jornal da Tarde que, embora usasse um vestido um tudo nada espampanante, às bolinhas azuis e vermelhas sob um fundo branco, me pareceu simpática e com uma boca que cabe na cara, ao contrário da Manuela Moura Guedes.
No Jornal da Noite houve uma variante: esteve lá um senhor, que foi apresentado como Miguel Sousa Tavares, o tempo todo a ver e ouvir estas e outras notícias e, como o castigo ainda era pequeno, de vez em quando tinha de fazer uns comentários. Deu-me pena. Ter de comentar tais notícias! É o que faz a necessidade. E o senhor bem precisa de quem lhe dê uma mãozinha para equilibrar o orçamento, já que me pareceu que a fatiota que usava devia uns meses à recolha de roupas para a AMI, o cabelo já grandito (o António Variações teria ali uma boa hora de trabalho árduo) e despenteado, e quem não tem dinheiro para whisky bebe bagaço e depois fica assim com aquela voz rouca que só se suporta ao António Sérgio, pelos bons momentos musicais que sempre proporcionou. Mas eu sou suspeito porque gosto um pouco do Miguel Sousa Tavares: do que escreve e do que (não) diz!

Ah! O Glorioso? Foi empatado! Mas, contra lagartos, dragões e outras espécies animais, no fim será o que vai rir mais!